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História da Lingerie Imprimir E-mail

O Soutien

Incrivelmente, o primeiro soutien, serviu para uso de casta de sacerdotisas na antiga Grécia, que eram contempladas e veneradas, e ao contrário do que se possa imaginar, deixavam os seios à mostra. Eram corpetes que sustentavam os seios pela base e os levantava, deixando-os completamente nus. A mulher participava de todas as atividades da sociedade, incluindo ai, captura de touros e expedições marítimas. Estavam em igualdade social com os homens.

A indumentária feminina servia, assim como toda arte grega, para ser contemplada e para sensibilizar o outro. Não era uma vulgar, sua indumentária universalizava algo interior e rebatia nos outros como um ego. A mulher era livre, como livre era seu corpo, seu seio. No período Arcaico grego, surgiu o proto soutien, uma tirinha de pano, geralmente vermelho, que enrolavam sob os seios, para os envolver, levantar e sustentar, mantendo-os firmes , impedindo que tremessem ao andar. Era a paixão grega pela harmonia e beleza, explicando o pudor.
O soutien não tinha o efeito pratico das artes de ofício, que era a formatividade de uma peça para se alcançar um fim prático, uma necessidade. Isto ocorre mais tarde, após a invasão de Roma, surge a faixa chamada fáscia, que tinham como objetivo comprimir os seios para que não crescessem. E caso a natureza vencesse, usava-se um couro macio para esmagar o busto, era o mamilare. Pata as privilegiadas que tinham seios pequenos, havia o echarpe, que envolvia os seios sem comprimi-los. A mulher começa a ser tratada com desigualdade e chamadas como pequenas criaturas.
Após a queda do império romano e invasões celtas e germânicas, a preocupação de sustentar os seios desaparece por vários séculos e com ela, o soutien, se é que posso usar esse nome. No século XII e XIII, as roupas eram usadas para alongar a silhueta, valorizando as mulheres magras, com isto surge a Cota, conhecemos como espartilho e o Beaud, corpete amarrado por trás ou pelo lado, apertando o busto e costurado a uma saia plissada. Havia também o sucote, um colete usado por cima do vestido e amarrado. Tudo escondendo o busto. .Lembra-me de cavalos com arreio, pobres mulheres, sem liberdade de mover-se debaixo de tantas amarrações, mas isto era apenas o início do período da tortura pela universalização deste juízo estético. Algum louco varrido, verbalizou sua opinião de como as mulheres deviam se vestir e isso se espalhou e durou até o fim da primeira guerra mundial. Tendo mudado apenas os vários materiais empregados na sua confecção e o grau com que o espartilho, precursor do soutien apertava e matava aos poucos as mulheres.
Detalhe, as mulheres não podiam mostrar os pés, eram castigadas pelos homens da igreja romana, mas não se importavam com o colo à mostra. No final da idade média, a mulher é livre novamente para se vestir e considerada pelos puritanos como pecadora natural, ou seja um caso perdido. No século XV, usava-se um cinto sob o busto, para sustentar os seios, realçando-os sob o vestido. Algumas usavam uma espécie de colete que achatavam os seios e realçavam o ventre, enfatizando o culto à fertilidade, retorno ao período paleolítico 20000 A .C. O decote se torna cada vez mais audacioso.
No renascimento, século XV, surge à moda de um seio à mostra e o outro não, é a época da exaltação erótica. Certamente, esta época aguçou a captação de estímulos, abrindo os pontos de percepção, os sentidos,da maioria dos homens, apesar de escandalizar a muitos, que através da opinião formada, experiência estética, voltam a oprimir as mulheres. Também, elas exageraram. Volta a sustentação dos seios por peças rígidas , era o Vasquim, corpete amarrado nas costas, com forro pespontado, reforçado por fios de latão. Havia ainda, as gaiolas, corpete de metal, usado por mulheres com má formação.
Com o fim do renascimento, reina o sofrimento absoluto para as mulheres, as coitadas usavam o Corps Pique, que elimina o ventre, apertando a cintura e dá ao busto o aspecto de cone, amarrado com uma haste, que pesava até 1 kg, enfiada em um encaixe e costurada no tecido do corpete. O aperto ao corpo feminino era tanto, que suas costelas chegavam a se cruzar. Busto Prisioneiro, fim do decote, época da reforma e contra – reforma.
Mas as mulheres dão um jeito, não dura muito, mas... Principalmente as meretrizes, que usavam a gougandine, espartilho amarrado e entreaberto na frente. Sustentavam os seios e as costas, quando era necessário assistir longas cerimônias na corte. Até 7 de setembro de 1675, só os homens fabricavam roupas íntimas e se aproveitavam para apalpar as mulheres. Vindo à tona este fato, o parlamento autoriza costureiro a faze-lo para acabar com a libertinagem.
As costureiras, também vítimas da tirania do espartilho, tinham aguçado seu espaço potencial, lugar entre o exterior, a realidade que as escravizava, e o interior, onde já materializavam criativamente, peças mais confortáveis, já que os desmaios, principalmente após as refeições eram comuns. A vida das mulheres tem uma melhora substancial, por ora. No século XVII, os padres faziam sermões contra a nudez do busto, perdoavam algumas e as mais ousadas ganhavam palmadas no bumbum resolvendo a questão. Sei.
Com a morte de Luiz XIV chega o tempo do fim da agonia. No século XVIII, a polêmica acerca do busto diminui.
No reinado de Luiz XV, as mulheres se libertam, mas o espartilho continua comprimindo seu corpo, mas as astes de metal são substituídas, pelas costureiras, por outras mais flexíveis. Agora, usa-se corpete com barbatana de baleia, este não apertam mais os seios, que parecem prestes a escapar dos decotes. O avesso do corpete erra bastante grosseiro, feito de tecido cru, pespontado. Mas o direito, o tecido é adamascado de cetim, de brocado, de seda bordada ou não. Torna-se símbolo de status, já que a mulher modesta não pode usa-lo, pois tem que trabalhar, então usa apenas uma saia e uma camisa sob a roupa, um cosolete...
Em 1759, há uma revolução médica pedagógica contra o corpete. Uma verdadeira campanha para varrer da vida das mulheres essa indumentária que as aleijavam. Assistimos aqui a liberdade, somente por enquanto, para variar. Surge vindo da Inglaterra corpete sem barbatanas, vestidos sobre a blusa e um simples saiote. Ai que alívio.
As mulheres mais uma vez abusaram, como todos que vivem privados de liberdade por muito tempo. Musselinas e tules eram usados com tudo, lindos, transparentes, sedutores... Mas a pneumonia atacou aqueles corpos acostumados à escravidão e não a liberdade, e o número de mortes superou ao do período do terror do corpete, por isto ele espartilho volta, mas agora, sem barbatanas, maravilhosos, de veludo ou cetim.
Só no início do século XX com a revolução da industria têxtil, os primeiros tecidos elásticos surgiram. Na exposição de 1885 a senhora Cadolle mostra seu primeiro “Corpete para seios”, não se apóia mais nos quadris como o espartilho, nem sustenta os seios por baixo como dentro de taças, mas o princípio era de suspender o busto por alças sustentadas nos ombros. Não pense que foi o fim do sofrimento, ele durou até a primeira guerra mundial. Pois, enquanto os homens guerreavam, as mulheres trabalhavam nas fábricas, o que impossibilitava o uso do espartilho. As mulheres se libertam, do espartilho, dos chapéus, fumam, cortam os cabelos, se emancipam. Ainda bem.
Para o bem das mulheres, que a arte da senhora Cadolle , continue fazendo parte das artes duráveis, registrada em livros para as próximas gerações. Sem os altos e baixos mostrados na história. Desta vez, que o não à liberdade seja para sempre.

A Calcinha

Os primeiros registros que mostram modelos de “calcinhas” datam do ano 40 A . C. em Roma. Eram pedaços de algodão, linho ou lã amarrada ao corpo como fraldas.
As calças de baixo femininas se difundiram mesmo no século XVI, como imitação das masculinas.
No século XVI, Catarina de Medicis usou o culote, ainda inspirado nas calças masculinas para montar a cavalo. O culote era um tipo de calça cigarrete larga criada para que as mulheres pudessem se movimentar mais à vontade, sem ficar com seu sexo exposto.
Nos séculos XVIII e início do XIX, as dançarinas e femes de theatre, artistas das artes performáticas, a dança, delicada, insinuante, mas controladas por decretos de lei, eram obrigadas a usar roupas de baixo, porque ao dançar, levantavam às vezes as pernas acima da cintura.
As “calcinhas” descritas acima, não eram usadas por todo o povo, a maioria das mulheres nem sonhavam em tê-la. Ficavam com suas partes intimas ao ar. Apenas as mulheres da realeza usavam o culote. Havia ainda o cinto de castidade, contraceptivo metálico ajustado em torno da genitália feminina e trancado a chave pelo marido ou pelo amante desconfiado e paranóico. Mais que um contraceptivo, um instrumento de tortura. Uns cobriam apenas a região da vagina, outros nem o ânus deixavam de fora. Na hora do aperto, as usuárias tinham de se aliviar através das frestas e orifícios disponíveis em pontos estratégicos, os quais eram mínimos, além de protegidos por lâminas ou hastes pontiagudas, para evitar o acesso de algum dedo mal-intencionado. Sem o amparo de higiene, transformava-se em foco de doenças. E pensar que o uso do cinto podia se prolongar por meses. As esposas dos cruzados usavam frequentemente, talvez para garantir que não seriam traídos na longa ausência.
Quando um cavaleiro saia a caminho das Cruzadas encomendava um novo cinto para sua mulher e parte sem saber que o ferreiro do castelo fizera uma duplicata da chave. Segundo James Brundage, renomado especialista em sexualidade medieval, o cinto de castidade só foi usado para valer por homens, não por mulheres. Maneira mais segura que se encontrou para preservar a integridade física de prisioneiros à mercê de guardas mal intencionados.
A professora Felicity Riddy, juntamente com outro estudioso, do centro de estudos Medievais da Universidade de York, está prestes a publicar um ensaio contradizendo o tema, dizendo que o símbolo máximo da repressão sexual e do machismo medieval, não passou de fantasia vitoriana e promete provar isso com farta documentação. Aponta ainda os satiristas Guillaume de Machaut e Rabelais como os responsáveis pela mitologia que se criou em torno do cinto de castidade. Não creio que o cinto de castidade seja um mito, visto que as mulheres sofriam nesta mesma época com o terror do espartilho.
Como no caso do soutien , só com a primeira guerra mundial é que as calcinhas começam a ganhar os contornos das que conhecemos hoje. Quanto mais a mulher ganhava espaço na sociedade, mais a calcinha foi diminuindo.

O Espartilho”

A história dos espartilhos começa por volta do segundo milênio antes de Cristo. Em Creta, as mulheres usavam um corpete simples que sustentava a base do busto, projetando os seios nus. Essa "moda" era inspirada na Deusa com Serpentes, ideal feminino da época.
No século 14, a preocupação era dar forma à porção central do corpo, por isso, homens e mulheres usavam faixas apertadas em volta do corpo.
Até a Idade Média, os seios eram sustentados por corseletes, uma espécie de colete justo, que eram usados por cima de camisas e amarrados nas costas. Com o tempo, essa peça tornou-se mais rígida e pesada, até o surgimento do espartilho propriamente dito.
No século 18, o uso de barbatanas de baleia deixaram as hastes mais flexíveis e os espartilhos menos rígidos. Já no final do século, a haste central foi substituída por várias barbatanas. O novo espartilho comprimia os seios por baixo e deixava-os mais evidentes sob os decotes.
Nos anos 20, as roupas íntimas eram formadas por um conjunto de cintas, saiotes, calcinhas, combinações e espartilhos mais flexíveis. E a lingerie passou a ter outras cores, além do tradicional branco.
Em 1930, a Dunlop Company inventou um fio elástico muito fino, o látex. A roupa de baixo passou a ser fabricada em modelagens que respeitavam ainda mais a diversidade dos corpos femininos.
A partir de 1938, a Du Pont de Nemours anunciou a descoberta do náilon. E as lingeries coloridas, finalmente, tornam-se bem populares. Mas em 1939, com o início da Segunda Guerra Mundial, o náiloon saiu do setor de lingerie e foi para as fábricas de pára-quedas.
O declínio do espartilho se dá na Primeira Guerra Mundial. Com os homens ocupados, lutando na frente de batalha, as mulheres foram convocadas a assumir os trabalhos nos campos, nas cidades e nas fábricas.
O trabalho operário exigia espartilhos menores, mais confortáveis e simples. Além disso, a burguesia não contava mais com grande criadagem, o que fez com que as damas optassem por modelos de corpetes mais simples e fáceis de vestir.
Os espartilhos foram substituídos por cintas. Os seios, porém, precisavam de algum suporte, já que o espartilho também servia para erguê-los.Surge, assim, o sutiã.
Em 1947, com o "New Look", de Christian Dior, que valorizava as formas do busto e cintura fina, os espartilhos voltaram a ser usados. Nessa época, o estilista francês Marcel Rochas criou um modelador cintura-de-vespa que foi um grande sucesso.
No final dos anos 50 e início dos 60, os fabricantes começaram a se interessar pelas consumidoras mais jovens. A Lycra foi lançada com sucesso, pois permitia os movimentos. A lingerie passou a ter diversos tipos de modelagens, embora, na maioria, ainda mantivesse os sutiãs estruturados. No final dos anos 70 e início dos 80, a inspiração romântica tomou conta da moda. Cinta-liga, meias 7/8 e corseletes, sem a antiga modelagem claustrofóbica, voltaram à moda. Rendas, laços e tecidos delicados enfeitavam calcinhas e sutiãs.
Na década de 80, os corpetes com barbatanas, que realçam o corpo, voltaram a ser apreciados. Já no início dos anos 90, com o fetichismo em moda, alguns grandes estilistas como Gianni Versace e Jean-Paul Gaultier lançaram espartilhos futuristas e que deviam ser usados, não como roupa de baixo, mas por fora, para serem mostrados.
Dos anos 90 até os dias de hoje, a ligerie, assim como a moda, não segue apenas um único estilo. Modelagens retrô, como os caleçons, convivem com as calcinhas estilo cueca. Os sutiãs desestruturados dividem as mesmas prateleiras com os modelos de bojo. Tecidos naturais, como o algodão, são vendidos nas mesmas lojas de departamento que os modelos com tecidos tecnológicos.

O primeiro sutiã moderno

No final de século XIX, foi criado na França o precursor do sutiã, numa tentativa de oferecer mais conforto do que o repressor espartilho. A butique de Heminie Cadolle elaborou um modelo em tecido à base de algodão e seda, semelhante aos modelos atuais. O sutiã foi devidamente reconhecido e patenteado em 1914 nos Estados Unidos pela socialite nova-iorquina Mary Phelps Jacob. Ele era feito com dois lenços, um pedaço de fita e um pouco de cordão.
Diante da novidade, prática e mais higiênica, as amigas de Mary intensificaram cada vez mais seus pedidos. Foi então que ela resolveu vender a patente a uma fábrica de roupas femininas, a Warner Brothers Corset Company, por 15 mil dólares da época. Era o início da industrialização da Lingerie. Os primeiros modelos eram pouco inovadores e, em vez de realçar os seios, os achatavam. Havia poucas opções de tamanho e o ajuste era feito por presilhas nas alças. A partir da década de 20 a empresa americana Kestos lançou modelos mais próximos dos atuais, com pedaços triangulares de pano presos por um elástico que passava sobre os ombros, cruzava nas costas e abotoava na frente. Daí muita coisa mudou.

Fontes: www.deluc.com.br, Folha Online, Revista Manequim, www.uol.com, www.lingerieclub.com.br

 
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